Agricultura familiar e biocombustíveis
É possível a integração entre áreas de produção de agroenergia e a agricultura familiar? Estudo produzido pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) em parceria com o Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (NEAD) do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) mostra que sim.<br><br>
“Existem saídas viáveis e realistas para a expansão da cana-de-açúcar e que podem dar certo”, diz Gerd Sparovek (foto), coordenador da pesquisa que propõe a criação de “Pólos de produção de Energia & Alimentos & Cidadania”. Após o término de um trabalho que envolveu entrevistas e coleta e análise de dados, os pesquisadores propuseram um modelo que promove ganhos tanto para os usineiros como para os agricultores familiares. “A chave dessa questão é a integração com a pecuária, seja de produção de leite, mista ou de corte, indo, nesse caso, desde a agricultura familiar até a pecuária extensiva”, completa Sparovek.<br><br>
“Foi gerado um debate que colocou a produção de agroenergia e de alimentos em pólos antagônicos. O NEAD está incentivando os centros de estudo a desenvolver alternativas que demonstrem a possibilidade de sinergia entre essas iniciativas, visto que podemos estimular a produção de bioenergia e agroenergia para o próprio consumo das propriedades familiares, bem como a produção em escala para atendimento ao mercado consumidor”, lembra o coordenador-geral do NEAD, Carlos Mário Guedes de Guedes.<br><br>
Expansão e integração<br><br>
Primeiramente, o estudo buscou identificar onde e como vai acontecer a expansão da produção sucroalcooleira no Brasil, utilizando dados do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Universidade Estadual de Campinas, da União da Indústria de Cana-de-Açúcar, e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Foi observado que essa expansão possivelmente irá se sobrepor a regiões de pastagens extensivas, áreas de agricultura familiar e áreas consideradas prioritárias pelo programa Territórios da Cidadania, nos estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais.<br><br>
A partir daí, os pesquisadores procuraram desenvolver alternativas para vincular a produção de energia à de alimentos, o que evitará impactos socioambientais negativos como a migração de agricultores familiares para outras localidades; deslocamento da pecuária extensiva para a Amazônia; e a predominância do famoso “mar de cana”, a monocultura da cana-de-açúcar.<br><br>
O modelo desenvolvido propõe a integração da produção de cana com a pecuária, com as usinas passando a fornecer ração bovina para os pecuaristas (de agricultura familiar ou não) a partir de seus subprodutos, como o bagaço da cana. Assim, a área de pasto pode ser reduzida drasticamente, liberando área para outras culturas. Além disso, de acordo com o estudo, dependendo das condições locais, uma unidade de produção de biodiesel pode funcionar anexa à usina, alimentada pela produção de grãos de sua região de entorno e das áreas de renovação de cana-de-açúcar. E a agricultura familiar pode assumir parte da produção de matéria-prima para o biodiesel. É essa integração que permite criar os “Pólos de produção de Energia & Alimentos & Cidadania”.<br><br>
Para o pesquisador Sérgio Paganini, integrante da equipe que realizou o estudo, o ponto forte da pesquisa é que suas proposições foram aprovadas pelos vários segmentos envolvidos. “Para chegar às conclusões do trabalho, nós discutimos as propostas com o setor empresarial – os usineiros –, com os movimentos sociais que representam os agricultores familiares, e com setores específicos, como o leiteiro. Houve uma acolhida muito grande para a proposta, mostrando que ela é realmente viável”, destaca.<br><br>
Fotos: Ana Carolina Fleury<br><br>
Fonte: <a href="http://www.nead.org.br/boletim/boletim.php?boletim=449¬icia=2106" target="_blank">NEAD</a>
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