Historial do desenvolvimento local no Brasil
Este texto consiste em uma breve contextualização do florescimento da
temática do desenvolvimento local na trajetória brasileira,
especialmente a partir de meados da década de 90. Atualmente, o tema
apresenta diferentes expressões no país, com várias iniciativas em
andamento. Há menos de dez anos, porém, ainda não comparecia no campo
de alternativas em jogo, embora seus embriões já pudessem ser
identificados.
1. Antecedentes: a década de 90 - iniciativas locais e elementos de inovação
Para uma reconstrução histórica sucinta, cabe partir da identificação
de um vasto conjunto de experiências localizadas que se expandiu nas
diversas regiões do Brasil, sobretudo a partir da década de 90.
Presencia-se desde então o surgimento de uma miríade de iniciativas, na
forma de ações e projetos relacionados ao combate à pobreza, à
desigualdade ou à exclusão, em campos estratégicos de políticas
públicas. Tais experiências, em sua maioria, trazem um eixo ou ponto de
partida setorial: nutrição e saúde, educação, trabalho e renda, meio
ambiente, infra-estrutura e moradia. Ou, combinadamente, trabalham com
segmentos específicos, principalmente a partir de critérios etários, de
gênero ou étnicos.
São iniciativas implementadas, sobretudo, naquele momento, por
entidades não-governamentais e governos municipais (em alguns casos,
associadas a programas federais de execução descentralizada). Em boa
parte, essas iniciativas associam-se à perspectiva de descentralização
impulsionada a partir da Constituição de 1988.
Começam também a se esboçar ações em parceria (não é por acaso que o
debate sobre este tema se inaugura nos anos 90, no Brasil) e,
progressivamente, constroem-se projetos localizados já não estritamente
monossetoriais. Ou seja, projetos em que se buscam estabelecer ligações
entre proteção e promoção social; acesso a direitos e inserção
econômica; moradia e trabalho; aspectos ambientais e sociais (expressos
no enfoque sócio-ambiental).
Desde então, cresceu a percepção da necessidade de registro e
visibilidade de todo esse leque de experiências locais, constituído a
partir de diferentes vetores e focos temáticos. Pesquisas e estudos de
caso, construção de bancos de dados de projetos, identificação de boas
práticas e premiações de experiências locais (sobretudo de iniciativas
municipais) começaram, desde aquele período, a ganhar presença na cena
pública brasileira. Surgem também esforços de criação de ambientes e
fóruns que entre seus objetivos incluem a circulação e disseminação de
práticas inovadoras como fator de aprendizagem e construção de
referências.
Mas o que importa aqui é identificar elementos relevantes que - ao
menos em parte - constituíam embriões das iniciativas sistêmicas de
desenvolvimento local, iniciadas na segunda metade e, principalmente,
ao fim dos anos 90.
Entre esses elementos, pode-se destacar, permeando um volume significativo de projetos e experiências:
-
os esforços de construção de parcerias entre organizações de diferentes
setores (governamentais, comunitários e, em proporção bem menor,
empresariais);
-
o impulso a processos de auto-organização e capacitação das populações locais;
-
a valorização da participação social no planejamento e na gestão de projetos;
-
a busca de um modo de ação social em que o "público-alvo" torna-se
agente ativo ou "público-sujeito" dos processos (e não apenas
beneficiário ou cliente de programas e projetos);
-
a ampliação prática da noção de política pública (como algo que inclui a política governamental, mas não se reduz a ela).
Ainda que não representassem a tônica generalizada das iniciativas que
emergiram nos anos 90, tais elementos indicavam uma mudança em face do
padrão verticalista e centralizador que, no caso brasileiro, ocupou
praticamente toda a cena nas décadas anteriores.
Particularmente quando sobressai a ênfase na articulação
interinstitucional conjugada com um papel ativo das populações locais,
produzindo a interface entre políticas sociais e políticas de
desenvolvimento, o experimentalismo difuso e inovador que emerge desde
os anos 90 constituiu mais do que uma alternativa provisória, um caldo
de cultura gerador de novos referenciais de políticas públicas. Foi
nesse processo que visões mais abrangentes (ou "integradas"), sob a
perspectiva do desenvolvimento local, começaram a entrar em cena no
Brasil.
2. O impulso ao desenvolvimento local desde o final da década de 90
A partir de meados da década de 90, verificou-se no Brasil um grande
impulso ao desenvolvimento local, vindo de diversas frentes. Ampliou-se
o debate sobre o tema, criaram-se programas de apoio ao desenvolvimento
local e, sobretudo, começaram a proliferar experiências concretas em
diferentes lugares do país.
Um aspecto a destacar, nesse processo, é a construção do
desenvolvimento local como perspectiva consciente para os sujeitos
diretamente atuantes, e não como característica que um observador
externo atribui a determinadas ações. Ou seja, mais do que ver "um quê
de desenvolvimento local" em tal ou qual projeto, trata-se de
reconhecer que os próprios participantes passam a se perceber como
ativamente envolvidos em dinâmicas nomeadas como desenvolvimento local
ou territorial.
Considerando a multiplicidade de casos concretos em andamento, não é
difícil verificar que estamos diante de processos de experimentação.
Mas há algo que se distingue do experimentalismo difuso que marcou um
grande contingente de ações locais inovadoras, sobretudo a partir da
década de 90, no Brasil. Parece haver de lá para cá uma adição - ou uma
mudança - de sentido em todas essas ações, tal como são vocalizadas por
seus atores diretos.
Com efeito, as novas abordagens sobre o desenvolvimento local que, no
Brasil, passaram a ser formuladas e experimentadas só na segunda metade
dos anos 90 trazem um diferencial significativo: a busca de uma ação
territorializada em que não se trata apenas de realizar "um projeto",
no sentido usual, mas de gerar uma matriz de projetos e ações
continuadas, a partir da mobilização dos diferentes atores atuantes e
presentes nos territórios.
Apesar de essa característica estar presente em diversos casos, as
iniciativas de desenvolvimento local em curso, no Brasil, são bastante
diferenciadas quanto às metodologias, às ênfases temáticas e à
abrangência geográfica. Há experiências em andamento tanto em
comunidades com menos de mil moradores quanto em regiões com 400 mil
habitantes. E há também uma variada gama de termos e designações em
uso, segundo diversos enfoques ou núcleos de fomento institucional.
Fala-se em desenvolvimento econômico local (DEL), em metodologias de
desenvolvimento local integrado e sustentável (Dlis), em Agendas 21
locais, em arranjos produtivos locais, em redes de sócio-economia
solidária sob bases locais etc.
A proposta de uma inter-redes de conhecimento (a Rede Dlis) surge como
um esforço para conectar essas diferentes abordagens e experiências. Em
sua ação, a partir de 2002, começou a ser promovido um evento anual de
larga escala: a Expo Brasil Desenvolvimento Local, com o objetivo de
gerar visibilidade para as iniciativas concretas, facilitar
articulações entre atores e fortalecer ações de desenvolvimento local.
A Expo Brasil representou um marco na agenda de eventos voltados para
ações de desenvolvimento local, inclusive internacionalmente. Em cada
um dos eventos, estiveram presentes mais de 2 mil pessoas de todas as
regiões do Brasil, incluindo agentes locais, gestores de projetos,
pesquisadores e representantes de instituições da sociedade civil, de
empresas e de diversas instâncias e organismos de governo, além de
especialistas nacionais e atores internacionais - entre os quais
destaca-se a participação portuguesa. Como um traço básico a sobressair
desses eventos está a revelação da vitalidade dos temas e das
experiências ligadas à perspectiva de desenvolvimento local ou
territorial.
Vale destacar alguns aspectos evidenciados em todo esse processo e que
se refletem nas sucessivas edições da Expo Brasil e em suas
publicações. Alguns avanços vêm sendo identificados por diversos
formuladores, pesquisadores e gestores ali presentes, tais como o
crescimento do número de iniciativas de desenvolvimento local pelo
país, a emergência de redes multicêntricas e difusas de agentes
envolvidos em iniciativas locais e o surgimento de centros de criação
conceitual, capacitação de agentes de desenvolvimento, estudos e
pesquisas sobre o tema.
Por fim, destaca-se a existência crescente, nos últimos anos, de
programas e metodologias de apoio ao desenvolvimento local, no Brasil.
Tais estratégias vêm sendo impulsionadas por múltiplos núcleos de
referência, inclusive ministérios e órgãos nacionais e regionais de
fomento. Com efeito, diferentes ministérios vêm implementando programas
a partir de uma matriz territorial, com ênfase na ação direta dos
agentes locais no planejamento e na gestão do desenvolvimento.
Especialmente, há ações promovidas nessa direção pelo Ministério do
Desenvolvimento Agrário, pelo Ministério do Meio Ambiente, pelo
Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, pelo Ministério
da Integração Nacional e ainda esforços de ação interministerial no
fomento a arranjos produtivos locais (APLs). Além dos programas
governamentais, vale menção a estratégias e metodologias que têm seus
núcleos de referência em organizações da sociedade civil, como a
estratégia de Dlis que vem sendo formulada e desenvolvida
principalmente pela Agência de Educação para o Desenvolvimento (AED), a
abordagem das redes de gestão compartilhada para o desenvolvimento de
microrregiões, trabalhada pela Personal Consultoria em diferentes
territórios, e a metodologia Gestão Participativa para o
Desenvolvimento Local (Gespar), formulada pelo Instituto de Assessoria
para o Desenvolvimento Humano (IADH).
3. Desafios atuais
Hoje já é amplo e diversificado o elenco de iniciativas de
desenvolvimento local em andamento no Brasil. Porém, ainda que
crescentemente afirmada por pessoas e organizações dos mais variados
perfis e setores, trata-se de uma trajetória que envolve significativos
obstáculos e desafios. Entre estes, podem ser destacados:
-
o clientelismo como padrão de relação política ainda dominante, a
enfraquecer a gestação de redes e espaços democráticos de participação
desde as bases da sociedade;
-
a cultura de passividade enraizada em grande parte da população brasileira, à espera que mudanças venham "de fora" ou "de cima";
a segmentação das instituições governamentais, que faz da
desarticulação das ações um "mecanismo natural" e transforma a
integração num grande desafio;
-
a tradição de auto-referência e corporativismo das instituições, que
dificulta a gestão compartilhada e faz do protagonismo institucional um
obstáculo ao protagonismo local;
-
as descontinuidades associadas a mudanças político-administrativas, que
muitas vezes levam à desconsideração de acúmulos anteriores e das
próprias dinâmicas locais em andamento;
-
a visão imediatista dos atores, que dificulta a percepção do tempo de
maturação requerido pela construção social dos territórios, que não se
restringe (e não corresponde essencialmente) aos resultados tangíveis
de curto prazo.
Como se percebe, boa parte desses obstáculos e desafios diz respeito à
cultura política, entendida como um conjunto de padrões de relação que
ampliam ou reduzem a esfera pública e a multiplicação dos poderes.
Em que pesem esses obstáculos, estão em curso processos ampliados de
discussão com vistas ao fortalecimento do desenvolvimento local no
Brasil, tendo hoje como um dos principais focos a busca de articulação
de políticas públicas de apoio ao desenvolvimento local, entendido este
como um processo de mudança social constituído sob bases territoriais e
com participação ativa dos agentes locais.
Ademais, vem sendo evidenciada a relevância estratégica de serem
fortalecidos vínculos extra-fronteiras, à luz de uma perspectiva de
mudança nos paradigmas de desenvolvimento, cujos fundamentos pressupõem
interações e movimentos em escala internacional.
A construção de redes transnacionais, como no caso dos países de língua
portuguesa, pode ser fator de impulso tanto para o fortalecimento das
iniciativas em cada território quanto, mais amplamente, para a
construção de novos caminhos de desenvolvimento, no atual contexto
mundial. Nesta ótica, destaca-se a necessidade de o desenvolvimento
local entrar na agenda das transformações que a humanidade hoje requer,
inclusive na perspectiva de uma "outra globalização", que reverta as
dinâmicas ainda dominantes, geradoras de pobreza, desigualdade e
exclusão social.